Póvoa de Varzim, dia #3 (final)

(Ruben Chipa, de gravata, espera ao lado dos colegas o momento de receber o prémio de melhor conto infantil ilustrado  Foto: Correntes d’ Escritas) 

Ruben Chipa e Francisco André, ambos de 9 anos, fizeram questão de usar gravata, acessório que luzia quase tanto como o sorriso que carregavam no rosto. “Eles são vaidosos”, explicou a professora do 4º ano da Escola EB1 de Sever oo Vouga. Com mais uma dezena de colegas, os pequeninos foram premiados na sessão de encerramento da 15ª edição das Correntes d’ Escritas. Estavam orgulhosos porque o conto ilustrado que escreveram seria distribuído pelas escolas do país, e por isso colocaram gravata.

Manuel Jorge Marmelo, alguns anos mais velho que os miúdos, mas também cheio de contentamento, subiu ao palco em seguida para que lhe entregassem o prémio literário Casino da Póvoa 2014. Ao discursar, o autor de Uma Mentira Mil Vezes Repetida lembrou as origens humildes da família – “sou neto de analfabetos, os meus pais fizeram a 4ª classe e eu estou agora a receber um prémio literário” – e fez um apelo pela manutenção da educação pública gratuita e da valorização dos professores do ensino básico nesta época de cortes de salários e de sonhos.

(Eduardo Lourenço: “Somos essencialmente seres temporais”  Foto: Ricardo Viel) 

Era um sábado ensolarado, mas centenas de pessoas preferiram passar o dia fechadas no auditório do hotel para escutarem José Rentes de Carvalho, Andrés Neuman, Manuel Rivas, Inês Pedrosa e Onésimo Teotónio Almeida debaterem sobre as razões que levam alguém a escrever. E quem trocou o sol pelas palavras foi recompensado com algumas reflexões de Eduardo Lourenço – tão elegante e adorável como os miúdos engravatados – sobre o tempo: “Nunca estamos fora do instante, que é o coração do tempo”; “Somos tempo, somos essencialmente seres temporais”; “Somos sempre um passado, somos seres que nos lembramos daquilo que fomos”. Aos 91 anos, terminou a sua intervenção agradecendo aos que se debruçam sobre a sua obra para tentar entendê-la, e tembém entendê-lo: “Eu, que nem mesmo me compreendo.”

Houve ainda espaço para que o espanhol José Ovejero – que por causa de uma greve dos trabalhadores do aeroporto de Frankfurt chegou com um dia de atraso – contasse a bonita história de um amor inventado que lhe rendeu o prémio Alfaguara do ano passado. Depois foi visto no bar do hotel a perguntar se alguém sabia da existência de traduções de Eduardo Lourenço para espanhol: “Fiquei muito curioso para ler mais coisas dele”.

E assim, com salas e corredores sempre cheios de pessoas interessadas, com atrações de 9 e de 91 anos, chegou ao final outra edição das Correntes d’Escritas. Já lá vão 15 anos desde a primeira reunião, recordada pelo vereador da Cultura Luís Diamatino com certo saudosismo. A sessão de encerramento daquele encontro foi realizada numa sala onde cabiam 70 pessoas. Os presentes não passavam de 25, sendo que pelo menos 15 eram escritores. Muita coisa mudou desde então, mas as Correntes continuam a ser um encontro entre amigos, ainda que agora, por sorte, ele sejam muitos mais.

Ricardo Viel


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