Prémio Nobel, 16 Anos

Prémio Nobel, 16 Anos

Quando abandonei a sala de embarque em direcção à saída, encontrei uma espécie de recolhimento e uma serenidade estranhíssima. Tive de percorrer um corredor imenso, completamente deserto. E então eu, o Prémio Nobel, o pobre senhor que ali ia completamente sozinho, levando a sua mala na mão e a sua gabardina debaixo do braço, dizendo: «Pois parece que sou o Prémio Nobel», ali, na solidão daquele corredor imenso. Não me senti no pináculo do mundo, pelo contrário. 
José Saramago


Há dezasseis anos a Academia Sueca atribuía a José Saramago o Prémio Nobel de Literatura. Sobre o assunto, escreveu Fernando Gómez Aguilera em José Saramago nas suas palavras:

 

No dia 8 de Outubro de 1998, a Academia Sueca concedeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura «pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», conforme justificou o seu secretário, Sture Allén. O escritor recebeu a notícia da boca de uma hospedeira no aeroporto de Frankfurt, quando se preparava para regressar da Feira do Livro para a sua casa de Lanzarote. Representava o primeiro Nobel para as letras portuguesas. Logo a seguir a conhecer o veredicto do júri, Saramago manifestaria: «Eu tenho a consciência de que não nasci para isto», e poria o Prémio ao serviço da sua língua, reconhecida através do seu trabalho. O romancista do Ensaio sobre a Cegueira insistiu que não iria haver qualquer ruptura com as suas convicções comunistas nem com as suas posições públicas de compromisso, como efectivamente assim aconteceria.

Em Dezembro, viajou para Estocolmo a fim de receber o galardão. No dia 7, pronunciou um discurso perante os membros da Academia, no qual reflectia sobre a sua obra, e três dias mais tarde, no dia 10, teve lugar a entrega oficial da medalha no Palácio dos Concertos. Durante o banquete, centrou o seu discurso na denúncia do não cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A notoriedade mundial proporcionada pelo respaldo da Academia seria instrumentalizada conscientemente pelo autor para dar maior difusão e ressonância às suas ideias, para reforçar o seu papel de polemista e para dar alento e projecção às suas querelas sociais e intelectuais, levando mais longe as suas preocupações e a sua participação na esfera pública. Relativizador de quase tudo, céptico militante, insistiria na protecção da sua identidade moral, política e de pensamento – «O Nobel dá-me a oportunidade de ser mais eu», declarou –, exigindo ainda mais de si na hora de cumprir as suas obrigações de cidadão e pondo a sua influência ao serviço de causas justas e daqueles que, isolados pelo silêncio e pelo esquecimento, mais necessitam de ser ouvidos. Uma atitude que ele próprio se en- carregaria de exprimir com clareza, tornando explícita a sua norma de conduta: «Aqui não só se apresenta um senhor português, autor de livros, Prémio Nobel da Literatura. Apresenta-se ele, mas também se apresenta o cidadão português que já estava preocupado como cidadão antes de que lhe dessem o Prémio Nobel. Apresentam-se dois que vivem na mesma pessoa: o autor e o cidadão.»

Saramago soube construir o perfil de um Prémio Nobel próximo, solidário, generoso e visível, em sintonia com a sua personalidade. Um escritor laureado, movido por uma vontade de serviço, de quem o crítico norte-americano Harold Bloom diria, generosamente, em 2001: «Entre os mais recentes, o único Nobel bem atribuído foi o de Saramago, que o honrou mais do que o Prémio o honrou a ele. Não há romancistas no Novo Mundo, Brasil, Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Austrália, mesmo na Europa Ocidental, tão modernos como ele. O Nobel foi tantas vezes dado a pessoas absurdas!.»

 

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