Que fizeram os portugueses com Os Lusíadas?

Na passagem de mais um dia 10 de Junho, data em que se celebra Luís de Camões, a Fundação José Saramago evoca este poeta maior da literatura mundial que imortalizou a saga dos navegadores portugueses integrando-na História de Portugal até ao século XVI, num questionamento permanente da sua época.

“Nota para o dia de Camões”, um artigo de Vasco Graça Moura publicado no Diário de Notícias, rexplica as razões por que o autor considera que Os Lusíadas constituem “uma elaborada epopeia do desvendamento do mundo e da aventura do conhecimento humano”.

 Recorde-se a propósito a peça de teatro Que Farei com Este Livro? na qual José Saramago ficciona, baseado em factos históricos, a luta de Luís de Camões pela publicação de Os Lusíadas, num tempo conturbado em que a Inquisição detinha um enorme poder. Como refere Luiz Francisco Rebello no prefácio à peça de teatro, publicada em 1980, a obra fala “da condição do artista e dos ‘desconcertos do mundo’ que fizeram de Camões uma figura paradigmática do seu tempo, cujas contradições sofreu na carne e assumiu na sua obra, em que genialmente procurou superá-las”.

A peça foi estreada em 1980 pelo Grupo de Teatro de Campolide/Companhia de Teatro de Almada, com encenação de Joaquim Benite, e deixa no ar a pergunta que Camões lança aos portugueses: “Que fareis com este livro?”.

 

 

***

 

Último quadro da obra “Que Farei com Este Livro?”

 

SERVENTE

Senhor Luís de Camões, agora mesmo ia eu a vossa casa. Mas, já que vos encontrei, aqui tendes o que vos manda mestre António Gonçalves. É o primeiro que acabámos. (Retira-se)

 

LUÍS DE CAMÕES

(Segurando o livro com as duas mãos)

Que farei com este livro? (Pausa. Abre o livro, estende ligeiramente os braços, olha em frente.) Que fareis com este livro? (Pausa.)

 

VOZ FEMININA

(Leitura soletrada)

Os Lusíadas…

 

VOZ MASCULINA
(Idem)

… de Luís de Camões…

 

VOZ FEMININA

(Idem)

…Canto Primeiro… 

 

VOZES EM CORO

(Idem)

As armas e os barões assinalados

Que, da Ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca dantes navegados, …

 

(As vozes ir-se-ão sumindo de modo que mal seja ouvido já o cerso seguinte, ao mesmo tempo que a luz vai baixando, até à escuridão, ficando apenas um projetor a incidir no livro que Luís de Camões continua a segurar.)

 

 

Pin It on Pinterest

Share This