Recordação de um sonho no Dia Mundial do Teatro

19 de maio de 1994

Sonho. Representa-se Blimunda. O teatro é ao ar livre, mas não todo, há partes que parecem cobertas. Plateia empinada e irregular, acompanhando os desníveis do terreno. (Não é a primeira vez que sonho com um teatro assim.) Não tenho bilhete. Procuro um lugar que esteja desocupado. Não encontro. Subo a uma colina donde se vê mal (recordação do galinheiro do São Carlos?), há obstáculos que impedem a visão, arbustos (da leitura de Teoria da Imaginacão Criadora antes de adormecer?). Não sei porquê, vou ao palco, onde já estão outras pessoas. O público mantém-se em silêncio. Depois ouvem-se alguns aplausos. Digo: «Obrigado àqueles que aplaudiram. Foram poucos, mas são bons. Quanto aos outros, fiquem sabendo que esta obra já está na História de Portugal (!) e que não a podem tirar de lá nem que se matem.» Silêncio total. Encontro-me na cobertura do palco, formada por pequenas abóbadas, como fornos de pão. A pintura é branca. Há varões de ferro salientes, do betão armado. Dobro um deles para baixo para evitar que alguém se fira nele. Imagino este ferro cravado numa barriga. Vejo garrafas de champanhe espalhadas no chão (por ter passado os olhos por um artigo sobre o espumoso catalão Codorniu?), algumas rodeadas de gelo. Deambulo pelo espaço do teatro enquanto o espetáculo prossegue lentamente. Percebo que o público está alheado, mas penso que se animará quando aparecer o anjo (da encenação de Jérôme Savary). Saio para uma espécie de varanda. Na varanda ao lado aparecem três cantoras do coro. Uma delas reconhece-me e sorri-me. Depois retiram-se. Fico só, num espaço que se torna fechado. Uma espécie de mangueira elástica (de ter estado regando a horta?) salta por cima do muro. Agarrando-me a ela, começo a subir. Há um portão fechado. Quando já vou a passar por cima dele, alguém o abre. Penso que do outro lado verei melhor o palco. Não sucede assim. Estou numa rua, é noite. Vem na minha direção um homem muito curvado (de ter pensado ontem que me inclino demasiado para comer?) que é o diretor do teatro. Diz-me que o espetáculo acabou muito tarde, às cinco e meia da madrugada, e que no fim havia poucos espectadores. Nada mais. Que me lembre. Salvo dois enigmas que ficarão por resolver: porquê uma das pessoas que estava comigo, quando buscava onde sentar-me, era Gomes Mota? Porquê a pessoa que me abriu o portão era Francisco Lyon de Castro?

in Cadernos de Lanzarote II 

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