Relevé de terre, “Um sopro e uma humanidade magníficos”

Ainda a edição de Levantado do chão em francês: comentário de Véronique Poirson, do blog Les 8 Plumes da revista L’Express:

 Sabia que José Saramago foi Prémio Nobel da Literatura em 1998?… Tinha-me escapado, ou não dei atenção, sei lá! Desastrosa ignorância!

Mas como me parece justo esse reconhecimento, depois da leitura de “Levantado do chão” que Saramago escreveu em 1980 e agora publicado entre nós!

Este livro é um canto. Um canto que começa com suavidade – mas não pacificamente. Há um homem, uma mulher, 500 anos de servidão, de lei do do senhor” que tem poder sobre os seus servos e exerce, entre outros, o direito de pernada.

E há um homem, uma mulher, a terra árida, a miséria, os dias de fome.

E depois, progressivamente, a narrativa povoa-se, a multidão aparece, a multidão dos miseráveis.

Ah, sim, é uma velha história, um certo déjà vu… Mas é a história eterna e nunca terminada, a partir dos membros de uma família que o autor acompanha em três gerações, do início do séc. XX até 1974, à Revolução dos Cravos, em Portugal.

Não posso deixar de ter na cabeça a canção de Ferrat “ils étaient vingt et cent, ils étaient des milliers…”. Claro que não há um campo de concentração nesta história. Aqui, conta-se outra miséria, a miséria das multidões oprimidas, negadas na sua humanidade. Carne para canhão, carne para sabão, carne para a ceifa, estamos sempre no desprezo e na negação dos indivíduos que, um a um, se levantam e resistem, vinte, cem, mil…

 

O livro de Saramago é muito belo. Exige algum esforço nas primeiras 40 páginas, por falta de hábito: não se trata das nossas dúvidas existenciais, das nossas ruas espestadas de escapes de automóveis, das nossas frustrações sexuais. Mas cruzamo-nos com velhas mães que erram nas ruas à noite para deixar ao casal dos filhos que a albergam a intimidade para fazer amor, mas os mortos acompanham os vivos, os homens e as mulheres têm esperança, revoltam-se, são seres humanos…

É a queixa dos postos de lado, dos humildes, dos que povoam Zola Giono, Amado, Depestre, William T.Vollmann…

Escutem José Saramago, esta língua tão particular, magnífica, original, para falar da condição rural, do choque da igreja e do poder, a palavra dos pobres, a compaixão acrescida pelas mulheres, escutem o ponto de vista do autor que se introduz na narrativa…

 Não é sempre actual? Ainda e sempre?

 “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.”

E mais: “Um dia, se não desistirmos, saberemos todos que coisas são estas e a distância que vai das palavras que as tentam explicar, a distância que vai dessas palavras ao ser que as ditas coisas são. Só escrito assim parece complicado.

Também complicada, por exemplo, parece esta máquina, e é tão simples. Chamam-lhe debulhadora, nome desta vez bem posto, porque precisamente é isso que faz, (…). Etc, etc, pedagógico também, portanto.

(…) o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, se um dedo grosso se aproxima da roda balanceira, se vai roçar, mesmo de leve, a mola de cabelo, ansiosa como um coração (…) Visto de Monte Lavre, o mundo é um relógio aberto, está com as tripas ao sol, à espera de que chegue a sua hora.”

L’Express

 

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