Resenha literária de “Claraboia” publicada nos Emirados Árabes

Resenha literária de “Claraboia” publicada nos Emirados Árabes

O periódico “The National”, dos Emirados Árabes Unidos, publicou recentemente uma resenha literária do romance Claraboia, de José Saramago. A obra publicada após a morte do escritor português acaba de ser publicada em inglês, e a resenha a ser lida abaixo foi feita a partir do tradução inglesa. Leia abaixo a crítica traduzida (trad.: Rita Pais).

 

O ROMANCE PERDIDO DO PRÉMIO NOBEL JOSÉ SARAMAGO É UMA ADIÇÃO DIGNA À SUA OBRA

Malcolm Forbes

A estória por detrás de Claraboia, de José Saramago, poderia agraciar as páginas de um dos seus romances: um autor galardoado com o Prémio Nobel reencontra-se com um manuscrito escrito em 1952 que fora deixado, jazendo adormecido, na gaveta de um editor após 36 anos. Como Pilar del Río, mulher do escritor, explica num comovente prólogo a esta nova edição inglesa (publicada pela Harvill Secker em 3 de julho de 2014), o Prémio Nobel português sentia-se na época algo estranho em relação a este «romance perdido», e por isso recusou-se a que fosse publicado antes da sua morte. Embora Saramago continuasse a ter uma carreira literária brilhante na sua vida mais tardia, não ouvir nada da parte do editor sobre Claraboia feriu profundamente o seu orgulho e seriam precisas perto de duas décadas antes de se atrever a escrever outro romance. O resultado foi que só depois da sua morte, em junho de 2010, é que Claraboia foi publicada e se tornou assim, como afirma Pilar, uma dádiva além-túmulo.

Na sua introdução, Pilar regozija-se por tantos dos germes da escrita mais tardia de Saramago estarem já presentes em Claraboia. Como esta é a primeira vez que leio algo escrito por ele, não posso comentar, mas pela força deste incondicionalmente absorvente estudo de personagens, quero seguramente ler muito mais. Claraboia é o retrato de seis famílias que ocupam um prédio de andares alugados, em Lisboa, dos seus amores, da sua solidão, das suas acesas batalhas domésticas e lutas diárias, tudo ouvido e bisbilhotado pelos vizinhos.

Enquanto o cenário do romance é identificável com os anos 50, e a sombra de Salazar avulta abundantemente, este elenco é surpreendentemente moderno. Saramago não se coíbe em relação aos tópicos meticulosamente tabu dos seus dias, desde o amor lesbiano à violência doméstica. Dada a glorificação da família como pedra angular da nação sob o domínio de Salazar, o retrato desprovido de sentimentalismos de muitos casamentos infelizes (e um encantadoramente feliz) é particularmente corajoso. A sua recusa em ser indulgente para com a moral da sua época é contundente. Lídia pode ser uma mulher por conta, mas Saramago retrata-a com grande respeito, uma vez que o seu comportamento envergonha aqueles que lhe chamam prostituta.

O ameaçadoramente brutal Caetano é posto no seu lugar pela sua permanentemente sofredora mulher. É esta maneira de pensar, totalmente oposta à da ditadura conservadora da época, que Pilar assume ter intimidado os editores em tempos de submissão e condenado este romance brilhante a ficar na gaveta.

É uma alegria ler a prosa autodidata de Saramago. Condimenta sem qualquer esforço o discurso quotidiano da classe trabalhadora com referências eruditas a Beethoven, Shakespeare e Diderot, com um vislumbre de orgulho pelo conhecimento destas grandes figuras que adquiriu por si próprio. Como muitos leitores já notaram desde que a versão portuguesa foi publicada em 2011, este romance sente-se tão vivo e tão fresco como os que publicou imediatamente antes da sua morte.

É de agradecer à Harvill Secker ter feito justiça ao original confiando a tradução à multipremiada Margaret Jull Costa, que demonstra sempre aquela aptidão notável para fazer esquecer aos leitores que estão a ler uma tradução.

Os leitores familiarizados com a obra de Saramago gostarão, sem qualquer dúvida, de fazer de detetives, buscando, através de Claraboia, pistas para os seus livros posteriores. Para aqueles que, como eu, não têm experiência prévia deste fantástico autor, sendo ao mesmo tempo o seu primeiro e último romance, Claraboia parecer ser a iniciação perfeita.

 

Pin It on Pinterest

Share This