“Saramago para miúdos” no Jornal de Letras

“- Consegues ver? – Não, não vejo nada. – Mas vê-se daqui! Sobe! O Carapinha sobe dois rochedos e coloca-se por trás do ombro esquerdo do Ruivo. – Espera! Naquela ilha que vem a descer o rio? – Sim – o Ruivo ri. Tem uma gargalhada feliz, timbrada, apesar da voz fininha, quando fala. – Bem, aquilo parece uma ilha, mas olha que é só uma jangada. É feita de pedra e coberta de cinza. É lá que vive o Mago, num sossego perfeito: – O José? – O José!” E este José, como todas as pistas indicam, é Saramago, o nosso Nobel explicado às criancinhas, como diria Mário Cesariny. A explicação é dada pelas conversas dos dois amigos Carapinha e Ruivo e mostrada aos olhos de um terceiro amigo: o leitor. O desafio é descobrir a escrita mágica de José e aprender o que é “maguear”, que é como quem diz, “tentar pôr as palavras certas nas bocas das pessoas”, descendo e subindo o rio grande da sua jangada de pedra. Sendo mago, José vê o que mais ninguém consegue ver e entende o que aos outros parece inexplicável. Claro que o José da história, ‘perseguido’ pelos dois amigos, sabe que as palavras por si não mudam o mundo, mas também sabe que “uma boa palavra, dita no momento certo, pode entrar nos outros e provocar gestos, ações”.

De palavra em palavra, de história em história, de caminho em caminho, de rio em rio, Carapinha e Ruivo vão desvendando o ‘mistério’ Saramago. A ajudar, as lindíssimas ilustrações de Isabel Beleza. Destinada a crianças com mais de 7 anos, a obra revela como as palavras se devem sempre apoiar no coração, para saírem com a ressonância das coisas genuínas. Uma ‘lição’ para gente de todas as idades. O título pergunta, o texto tenta responder. José, será mago? é o primeiro de uma série de contos dedicados “a grandes domadores de palavras”, pessoas que viveram e vivem para “nos alargarem horizontes”, ou como escreve o autor Mário Joao Alves: Gente quase como nós, que é obrigatório conhecer e saborear”.

FCR, Jornal de Letras, 18 de setembro de 2013

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