Sobre a alegria de Estela de Carlotto, que por fim encontrou o seu neto

Sobre a alegria de Estela de Carlotto, que por fim encontrou o seu neto

Em novembro de 2007 foi inaugurado em Buenos Aires um memorial dedicado aos desaparecidos políticos vítimas da Ditadura Militar Argentina (1978 – 1983). Mesmo debilitado devido a uma pneumonia que o levaria a ser internado dias depois, José Saramago fez questão de conhecer o monumento levantado ao pé do Rio da Prata. O escritor pediu para visitar o lugar uma hora antes da abertura oficial, por causa da sua saúde. Em cadeira de rodas, percorreu o muro onde 9000 nomes de desaparecidos estão gravados, e tocou-os com os dedos.

«A humanidade não pode esquecer esses crimes», disse ao então ministro da Educação da Argentina, Daniel Filmus, como relatou o jornal Página 12 na altura.

Na visita de José Saramago ao Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado estiveram representantes das Mães (Madres) e das Avós (Abuelas) da Praça de maio. Entre elas, estava Estela de Carlotto. Ontem, depois de 37 anos de procura, a presidenta das Avós da Praça de maio encontrou o seu neto, Guido. Laura Carlotto, filha de Estela, foi morta pelos militares argentinos em 1977, meses depois de dar à luz o filho, que foi entregue a uma família de adoção e nunca soube a sua verdadeira identidade. Há alguns meses, graças às campanhas feitas pela associação das Abuelas, Guido procurou a associação porque tinha dúvidas quanto à sua identidade. Após os testes de DNA, descobriu-se que ele era o neto que Estela de Carlotto procurava há 37 anos (leia aqui a notícia).

Saramago_desaparecidos(fotos: Reuters)

Hoje, ainda emocionados com a notícia de que Estela de Carlotto pôde, por fim, abraçar o seu neto, recordamos as palavras escritas por José Saramago em 2009 sobre sua visita ao memorial de Buenos Aires, a propósito do 5.º aniversário dos atentados ocorridos no dia 11 de março de 2004 em Madrid, outra barbárie a não ser esquecida.

 

Beijar os nomes
Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Quando na Argentina se inaugurou o memorial às vítimas da ditadura, as mães que eram nossas guias, mostravam-nos, poderia dizer-se que com o orgulho com que as mães costumam falar dos seus filhos: “Olha, este é o meu filho, ali está o de Juan Gelman, este é um sobrinho…” Eram simplesmente nomes gravados na pedra, nomes beijados mil vezes, eu próprio os beijei, como se beijavam em Madrid os nomes das vítimas do pior atentado ocorrido na Europa hoje, 11 de Março, cinco anos depois de um dia que dificilmente poderemos esquecer porque o terror cavou bem fundo, até ao coração da sociedade espanhola. Para conseguir, seguramente, que desprezássemos mais as suas causas e, de uma vez para sempre, o método que empregam, o terror como único argumento, malditos sejam.
Hoje via as mães abraçadas, as vítimas contemplando-se, querendo, talvez, ver no olhar dos outros o olhar dos seus desaparecidos. Recordei que há tempos tinha dito que essa imagem era lacerantemente bela. Pilar pede que a recupere. Com o meu abraço às vítimas e o meu beijo aos nomes escritos na nossa memória.

Em Espanha, solidarizar-se é um verbo que todos os dias se conjuga simultaneamente nos seus três tempos: presente, passado e futuro. A lembrança da solidariedade passada reforça a solidariedade de que o presente necessita, e ambas, juntas, preparam o caminho para que a solidariedade, no futuro, volte a manifestar-se em toda a sua grandeza. O 11 de Março não foi só um dia de dor e de lágrimas, foi também o dia em que o espírito solidário do povo espanhol ascendeu ao sublime com uma dignidade que profundamente me tocou e que ainda hoje me emociona quando o recordo. O belo não é apenas uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na acção moral. Por isso direi que poucas vezes, em qualquer lugar do mundo, o rosto de um povo ferido pela tragédia terá tido tanta beleza.

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