Texto #13: A morte e sua paixão pelo violoncelista

 

TEXTO #13:

“Com o seu vestido novo comprado ontem numa loja do centro, a morte assiste ao concerto. Está sentada, sozinha, no camarote de primeira ordem, e, como havia feito durante o ensaio, olha o violoncelista. Antes que as luzes da sala tivessem sido baixadas, quando a orquestra esperava a entrada do maestro, ele reparou naquela mulher. Não foi o único dos músicos a dar pela sua presença. Em primeiro lugar porque ela ocupava sozinha o camarote, o que, não sendo caso raro, tão-pouco é frequente. Em segundo lugar porque era bonita, porventura não a mais bonita entre a assistência feminina, mas bonita de um modo indefinível, particular, não explicável por palavras, como um verso cujo sentido último, se é que tal coisa existe num verso, continuamente escapa ao tradutor. E finalmente porque a sua figura isolada, ali no camarote, rodeada de vazio e ausência por todos os lados, como se habitasse um nada, parecia ser a expressão da solidão mais absoluta. A morte, que tanto e tão perigosamente havia sorrido desde que saiu do seu gelado subterrâneo, não sorri agora. Do público, os homens tinham-na observado com dúbia curiosidade, as mulheres com zelosa inquietação, mas ela, como uma águia descendo rápida sobre o cordeiro, só tem olhos para o violoncelista.”

José Saramago, in As Intermitências da Morte (2006)


Durante o mês de março, seguindo a sugestão dos amigos argentinos do Mundo Blimunda, a Fundação recuperará palavras de Saramago sobre as mulheres. Veja os textos anteriores:

TEXTO #1
TEXTO #2
TEXTO #3
TEXTO #4
TEXTO #5
TEXTO #6
TEXTO #7
TEXTO #8
TEXTO #9
TEXTO #10
TEXTO #11
TEXTO #12

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