Texto # 8: A mulher do médico, aquela que nasceu para ver o horror

 

TEXTO #8:

 “(…) amanhã terei de sair à procura de comida, está-se a acabar a que temos, seria útil que um de vocês fosse comigo, para me ajudar a trazer, mas também para começarem a aprender os caminhos para casa, a reconhecer as esquinas, um destes dias posso eu adoecer, ou cegar, estou sempre à espera de que aconteça, nesse caso terei de aprender de vocês, outro assunto, para as necessidades estará um balde na varanda, bem sei que não é agradável ir lá fora, com a chuva que tem caído e o frio que faz, em todo o caso é melhor assim do que termos a casa a cheirar mal, não nos esqueçamos do que foi a nossa vida durante o tempo que estivemos internados, descemos todos os degraus da indignidade, todos, até atingirmos a abjecção, embora de maneira diferente pode suceder aqui o mesmo, lá ainda tínhamos a desculpa da abjecção dos de fora, agora não, agora somos todos iguais perante o mal e o bem, por favor, não me perguntem o que é o bem e o que é o mal, sabíamo-lo de cada vez que tivemos de agir no tempo em que a cegueira era uma excepção, o certo e o errado são apenas modos diferentes de entender a nossa relação com os outros, não a que temos com nós próprios, nessa não há que fiar, perdoem-me a prelecção moralística, é que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o, e agora ponto final na dissertação, vamos comer.”

José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira (1995)

Durante o mês de março, seguindo a sugestão dos amigos argentinos do Mundo Blimunda, a Fundação recuperará palavras de Saramago sobre as mulheres. Veja os textos anteriores:  

TEXTO #1
TEXTO #2
TEXTO #3
TEXTO #4
TEXTO #5
TEXTO #6
TEXTO #7

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