Uma década de dedicação e saudade

Uma década de dedicação e saudade

Às vezes deveríamos sentar-nos juntos para juntos chorarmos.
Seria uma maneira de convocar os mortos para a vida que já não podem partilhar connosco
(José Saramago)

 

No dia 18 de junho de 2010, por volta do meio-dia, a Fundação José Saramago teve de emitir a sua nota mais triste para informar que José Saramago havia “deixado de estar”, como o escritor costumava definir a morte.

Nesta década de dedicação e de saudade, a FJS procurou desenvolver o trabalho de acordo com o que José Saramago imaginou, com um grupo de amigos, ao criar esta fundação: promover a língua portuguesa e o diálogo intercultural; fomentar a defesa dos direitos e deveres dos seres humanos; alertar para a emergência climática e para a necessidade de se cuidar o ambiente.

A FJS empenha-se, diariamente, em preservar o legado deixado por José Saramago. Nestes anos sem a sua presença física, foram editados e reeditados muitos livros de e sobre o autor de Todos os Nomes. Chegaram aos seus leitores dois romances inéditos, Claraboia e Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, um volume dos seus diários (Último Caderno de Lanzarote) e uma conferência importantíssima para entender o conjunto da sua criação, Da Estátua à Pedra, além de muitas outras publicações em revistas e jornais.

Surgiram, também, em redor da sua obra literária e do seu pensamento, dezenas de projetos musicais, obras de teatro, filmes, exposições, congressos de literatura, encontros e manifestações cívicas em todo o mundo. Um desses trabalhos, o filme O Ano da Morte de Ricardo Reis, do realizador João Botelho, tem estreia agendada para o mês de setembro. No site https://www.ardefilmes.org/amrr/ é possível obter mais informações sobre o projeto, a mais recente produção cinematográfica realizada a partir de uma obra de José Saramago.

Nestes dias em que a ausência se faz ainda mais presente, a FJS recupera umas palavras de José Saramago escritas em 2004. Publicado em espanhol, o texto é inédito em português:

Nenhuma palavra pode ressuscitá-los. Nem o amor mais forte tem poder para os restituir à vida. Os mortos, mortos estão. As cinzas voaram. Fica apenas a memória, essa constante companheira dos vivos, a memória cruel que de súbito nos crava na carne a dor da recordação, mas também a memória misericordiosa capaz de recuperar da obscuridade a brancura de um sorriso, o eco de um olhar,
o tremor de uma carícia.

Quem já não está habita no último de todos os refúgios, o da memória, essa gruta labiríntica de onde, continuamente, vamos colocando as luzes do caminho que une os mortos aos vivos. Ninguém estará definitivamente morto enquanto a memória dos que ficaram alimentar a recordação, seja esta dolorosa ou já simplesmente tingida de uma irremediável melancolia.

Às vezes deveríamos sentar-nos juntos para juntos chorarmos. Seria uma maneira de convocar os mortos para a vida que já não podem partilhar connosco. De longe, amigos, fazemos chegar-vos o nosso carinho nesta hora em que a ferida da vossa perda volta a reabrir e sangrar. Não podemos fazer nada mais senão pensar convosco, mas quem oferece pensamentos dá o melhor que tem.

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