Ibéria entre Europa e América Latina

Há algum tempo, em entrevista dada a um jornal espanhol, arrisquei-me a exprimir uma ideia, que logo tentei justificar, de que se Espanha viesse, algum dia, a transformar-se em federação, tal facto, além das profundas consequências que teria no relacionamento entre as suas diversas partes, obrigaria provavelmente a uma reconsideração total da relação entre os dois países da Península Ibérica, em todas as suas expressões, com particular relevância para a comunicação e para os intercâmbios culturais. Porque (e esta era a chave do meu raciocínio) o grau a que nesse caso seriam levadas, pela própria força expansiva da decisão, a identidade e autonomia próprias das várias nacionalidades no quadro federativa do Estado espanhol, impor-nos-ia a todos, portugueses e espanhóis, a necessidade de reexaminar, de alto a baixo, a questão das nacionalidades da Península, a portuguesa e todas as de Espanha, a partir de um ponto de vista histórico novo, nacionalmente menos desconfiado e culturalmente mais racional e produtivo. Desta situação, distinta em qualidade, não teríamos necessariamente de passar, por uma espécie de fatalidade mecânica ou divina, à fusão dos dois actuais Estados ibéricos, ou, por outras palavras, à entrada de um Portugal velho e intacto numa federação espanhola recém-nascida, mas sem dúvida criar-se-iam condições favoráveis a uma inédita harmonização estrutural – refiro-me ao complexo das culturas da Península – em que, de uma certa maneira, Espanha desapareceria, para em seu lugar surgir uma organização superior do espaço ibérico, onde Portugal poderia desempenhar um papel bem mais importante do que até hoje lhe coube. E pouco importaria, para a bondade do projecto, que, na suscitação e amadurecimento das circunstâncias que teriam levado Espanha a optar por uma fórmula federativa de Estado, não tivéssemos tido, nós, os de Portugal, qualquer acção directa – pela muito simples razão de que se existe um problema ibérico, ele é espanhol e não português, e é em Espanha que terá de ser resolvido.

Perante estas algo provocadoras ideias ficaram calados os gregos e os troianos, isto é, os portugueses que nós somos e os espanhóis que eles são. Do lado de Portugal não tinha eu que surpreender-me, porquanto tal atitude estava conforme com a que é mais corrente entre nós, de cada vez que temos de confrontar-nos, ainda que pacificamente, como neste caso, com a fortíssima evidência histórica e cultural que é Espanha: fazemos de contas que não é nada connosco, enterramos, como o avestruz, a cabeça na areia, donde só a tiramos se temos a certeza de que tudo continuará como antes. Do lado de Espanha, nem me surpreendeu, nem deixou de surpreender-me. Se alguém, lá, tomou conhecimento das minhas palavras, o mais certo foi ter resolvido a incomodidade daí resultante do mesmo modo que os governos de todo o mundo reagem às opiniões que lhes vêm de fora: tratou-se, da minha parte, de um intolerável acto de ingerência em questões que só a Espanha dizem respeito, em particular essa, tão melindrosa, da consecução plena das nacionalidades que a constituem. Suponho que não cometo injúria se disser que esta atitude não é diferente da nossa: admitamos que Espanha, por ser maior, não consiga meter a cabeça na areia – contenta-se com olhar para outro lado.

Claro que não faltará quem argumente que tais ideias, por antiquadamente peninsulares, portanto provincianamente locais, quase de chafariz e campanário, além de obsoletas, estão fora de moda, e que as dificuldades que a Península Ibérica tem tido para viver em comunidade estão já a ser resolvidas nessa outra comunidade, majestática e suprema, que é a Europa. Ora, talvez forçando um tanto a legitimidade que assiste a qualquer cidadão de emitir opiniões, mesmo sobre matérias que estão fora do seu campo de trabalho e mais aturada reflexão, eu diria que me parece um arriscado paradoxo político imaginar e pôr em prática arranjos e conciliações regionais a partir, não da sua específica e circunscrita lógica interna, mas de uma outra, pelos vistos superior, só porque nela foi introduzido um número mais elevado de factores, a saber, não dois países, mas doze, ou quinze, ou vinte, o que finalmente vem a significar, sempre do ponto de vista deste cidadão comum, reunir em um só os nossos comportamentos ibéricos – isto é, a cabeça da Europa, onde quer que esteja, Bruxelas ou Estrasburgo, mete também a cabeça na areia ou olha para outro lado. Tem-no feito desde a ideia que a fez nascer, continuou a fazê-lo como consequência inelutável da formação de um poder macro-europeu, e não creio que seja demasiado pessimismo prever que as Comunidades Europeias, como o aprendiz de feiticeiro da balada de Goethe, estarão talvez a incubar, por miopia política e ignorância ou desdém da História, para dramaticamente virem a eclodir no futuro, quem sabe se novas Sérvias e Croácias novas. Os nacionalismos não se extinguem por decreto, as nacionalidades têm a força da sua capacidade de sobrevivência histórica, mil vezes recalcada, mil vezes rediviva. Se há no mundo, e a Europa não é excepção, questão que esteja a exigir um profundo trabalho de revisão conceptual e prática, essa questão é a do nacionalismo. E se algum dia, neste continente, vierem a ressuscitar – ou já estão ressuscitando? – os velhos nacionalismos ditatoriais e xenófobos, bom será que nos interroguemos, porém tarde de mais, se a culpa desse ressurgimento não a tivemos nós todos, por, também neste caso, termos virado a cabeça para o outro lado, recusando-nos a ver o que está diante dos olhos: a resistência daqueles que não querem morrer, a recusa de grupos étnicos, linguísticos e culturais a deixarem-se extinguir para benefício do maior número.

Perguntar-se-á: e que tem isso que ver com as relações entre Portugal e Espanha? Pois eu direi que tem tudo. Quando, no passado, qualquer alusão à simples eventualidade de um entendimento particular entre os dois países ibéricos, que pudesse levar à criação duma comunidade sui generis naquela região da Europa, era insinuada, ainda que timidamente, por qualquer dos raros sonhadores dos dois lados da fronteira, não faltavam logo as suspeitas duma grave degenerescência da bossa patriótica, ou, pior ainda, indignadas acusações de traição à pátria, em nome da sacrossanta soberania nacional ofendida e quejandos ultrajes, em que não faltavam o hino, a bandeira e os antepassados. Hoje vivemos sem esses pruridos, o conceito de soberania limitada entrou sub-repticiamente e sem traumas na circulação das ideias, e já ninguém tem que temer a união política ibérica exclusiva porque ela será inclusiva na união económica, financeira, e pelos vistos também política, da Europa. Parece, portanto, que o tempo de pensar na Península Ibérica se acabou, e que, portugueses e espanhóis, nada mais teremos que fazer na vida senão esperar as sentenças que Bruxelas vá preparando para nós, os rumos, os caminhos e as opções, planos que não precisarão ser quinquenais para serem igualmente rígidos, igualmente intolerantes, e, quem sabe, igualmente intoleráveis, arrumando-se de passagem todas as despiciendas mas teimosamente embaraçosas questões ideológicas, que, se acreditarmos nos novos ideólogos, têm sido a causa de todos os males da humanidade desde o pecado original. Que não se veja nestas palavras o exercício gratuito duma ironia que melhor cabimento teria, acaso, nos romances que escrevo. Não me desdigo do que sou, um escritor, mas, nesta ocasião, preferiria ser visto como um cidadão comum que não pode calar as preocupações que nele faz nascer a realização duma Europa só aparentemente unida.

Quando declaro que sou escritor, quero dizer, também, e por exclusão de partes, que não sou nem político nem industrial nem comerciante nem economista nem financeiro, profissões estas que, tivesse-as eu, me dariam, então sim, conhecimentos suficientes para questionar os temas que hoje prevalecem na Europa. Mas como nem os políticos nem os industriais nem os comerciantes nem os economistas, e muito menos os financeiros, têm mostrado efectivo interesse pelos destinos e contradições das culturas, salvo aqueles que, por motivos utilitários, condescendem em abençoá-las com os benefícios duma qualquer «sponsorização», razão é que um cidadão escritor, por esta designação duplamente obrigado, se interrogue sobre aqueles destinos e aquelas contradições, sobre os caminhos por onde nos levam e para quê. Falo da cultura portuguesa, claro está, mas também das relações que ela mantém com a do seu vizinho da Península, pois o autor destas linhas é, e honra-se de proceder como tal, ao mesmo tempo português e ibérico, e, se não reclama para si uma já impossível cidadania ibérica (mais fácil lhe seria ter amanhã a cidadania europeia…), declara, com toda a solenidade que se lhe requeira, a sua ibérica pertença.

Até não há ainda muitos anos, quando os tais que, do nosso lado, propúnhamos o diálogo e o entendimento dos povos peninsulares, pretendíamos mostrar ao outro lado que a possibilidade desse entendimento e desse diálogo tinha raízes históricas profundas, sempre trazíamos à colação aqueles grandes nomes da nossa literatura – Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda, D. Francisco Manuel de Melo –, que, com muitos outros, mesmo já depois de entrado o século xviii, escreveram, com igual destreza de pensamento e de mão, em português e em castelhano. Os mais entusiastas desses iberizantes chegavam a cair na indesculpável debilidade de evocar a metade de sangue português com que Velázquez pintava os seus quadros, e não faltava, para regressar à literatura, quem repetisse à exaustão o dito de Cervantes, de que «o português é o castelhano sem ossos», hesitando, contudo, em comprazer-se no que isso significasse de amável brandura linguística ou vexar-se pelo que pudesse certificar duma pouco viril flacidez. As relações culturais entre Portugal e Espanha, para além dum razoável grau de seriedade de intenções, sempre levaram algo deste anedótico e deste pitoresco, que, se ainda hoje divertem quem com pouco se contente, só servem para fazer perder tempo e oportunidades. A verdade é que, nesta época de comunicações que todos dizem fáceis, as culturas portuguesa e espanhola comunicam mal entre si, e não se pode esperar que algumas melhorias recentes sejam bastantes para gerar, nos dois sentidos, uma corrente de interesses capaz de ir além daqueles grupos profissionais que um trabalho comum faz, necessariamente, ainda que não sempre com a desejada eficácia, aproximar. Espanha e Portugal estão sendo muito mais um campo onde se exercem e exercitam, em todos os domínios do pensamento e da criação, exógenas e longínquas influências, do que um espaço cultural capaz de dar continuidade sensível e inteligente a correntes que, comuns ou não a ambos os países, têm responsabilidade na formação consequente do tipo cultural que, na diversidade das nossas características, com alguma unidade viemos formando na Península. Não é este, claro está, um fenómeno exclusivo nosso. O mundo inteiro anda a vestir o corpo com as mesmas roupas, ao tempo que usa as mesmas palavras para exprimir os mesmos e cada vez mais repetitivos circuitos mentais.

Curiosamente, porém, mas não inesperadamente, começam a surgir em organismos comunitários e outros que lhes estão perto, sinais de preocupação sobre estas questões da cultura, como se, de súbito, esses organismos tivessem compreendido que, não só haviam praticamente esquecido os factores culturais em geral como o próprio processo integrador das Comunidades se tinha convertido numa espécie de novo e voraz Ugolino, com a diferença de que este, não devorando da mesma maneira todos os seus filhos, e até cuidando de alguns com particulares atenções, se comprazia nas sucessivas amputações do minguado corpo da Cultura. Simplificando um tanto, pode-se dizer que se defrontam na Europa dois partidos, o daqueles que da e para a Cultura têm uma noção e um projecto mercantilistas, e o dos outros que, conscientes de que a vocação criadora europeia, rica de séculos de invenção e experimentação, entendem que uma visão da Cultura determinada, também ela, pelas leis do mercado, conduziria ao seu inelutável estiolamento, como alguém que tendo herdado espiritualmente Camões e Cervantes não pensasse senão no modo mais fácil e produtivo de convertê-los aceleradamente em écus.

Para este ponto estão já a convergir declarações e tomadas de posição de altos responsáveis das Comunidades, mas, aconselhando a prudência que tais atitudes sejam aferidas pelas realidades práticas, tomemos, para nosso governo e alimento das esperanças, não ocasionais ditos de políticos, mas acções concretas que apontem ao imediato e ao mediato, ao presente e ao futuro. Um exemplo dessas acções foi a recentíssima realização do «Carrefour» das Literaturas Europeias nesta mesma cidade de Estrasburgo, onde, no geral, encontrei flagrantes coincidências com preocupações que venho manifestando, e que não são de ontem nem de hoje, mas desde que o projecto comunitário se abriu para que Portugal entrasse. No Carrefour foram expressos claríssimos votos: pretende-se agora uma Europa culturalmente viva, uma Europe re-fundada que afirme a sua paixão das diferenças culturais, uma Europa das culturas plurais e não dos seus Estados unidos, uma Europa de pólos de intensidade, mais do que de capitais, uma Europa não centralizada, mas descentrada.

Uma andorinha não faz a primavera, mas duas talvez ajudem. É o caso do simpósio sobre o tema «Cultura Universal & Europa», celebrado também em Estrasburgo por essa altura, onde se abordaram questões tão vivas como «Unidade e Pluralidade da Cultura Europeia», «Culturas, Poderes e Sociedade» e «A Europa vista de fora».

Se não há, nestas duas realizações, o objectivo apenas táctico de dar aos descontentes algo com que se distraiam enquanto a lógica do mercado e dos mercados prossegue o seu caminho, se tal simpósio e tal encontro vierem a constituir-se como avanços na compreensão plena da Europa por si mesma e da sua relação cultural com o resto do mundo, então será talvez possível começar a acreditar na viabilidade da Europa que muitos de nós ainda teimamos em guardar no coração e que não é, certamente, aquela que nos têm vindo a preparar. A responsabilidade dos dirigentes europeus comunitários não pode deter-se na ponderação e resolução dos problemas políticos, económicos e financeiros da Europa, ao mesmo tempo que as questões sociais lhes merecem uma atenção insignificante, se não quisermos antes, mais cruamente, chamar-lhe menosprezo. Ora, entre o complexo e quase labiríntico conjunto das questões sociais proporia eu que passasse a incluir-se a cultura (liberta, escusado será dizer, de práticas dirigistas de qualquer índole), ciente como estou de que uma adequada consideração do que se entende por social só será possível quando a dimensão cultural da vida humana for reconhecida, não como uma espécie de território à parte, com fronteira e alfândega, mas como o tecido conjuntivo da identidade própria de cada indivíduo e da sua pertença a um grupo, a uma colectividade, a um país, a uma cultura, a uma civilização. Mas isto seria assunto para outra conversa. Voltemos à Península Ibérica.

Voltemos à Península Ibérica para observar como as circunstâncias actuais e as ironias da História parecem estar a obrigar portugueses e espanhóis a tomar o caminho mais longo para uma aproximação mútua que, logicamente, deveria decorrer, ou ter decorrido já, com outra franqueza e facilidade, da simples convizinhança. Sem cair na ingenuidade simplificadora de tomar a parte pelo todo, observe-se, uma vez mais, a proposta do Carrefour de Estrasburgo: uma Europa das culturas plurais, e não dos seus Estados unidos, uma Europa não central, mas descentrada. Observe-se, também, o tema deste simpósio: Europa e Cultura Universal. Ou me engano muito, ou há aqui abundante matéria de reflexão, precisamente no sentido que acabo de enunciar. Vejamos.

Uma Europa das culturas plurais, uma Europa descentrada, uma Europa das diferenças, se isto alguma coisa quer dizer, só pode ser uma relação de paridade entre as diversas culturas europeias e, portanto, um lugar de dignidade própria para cada uma delas. Só pode querer dizer que a cultura portuguesa e a cultura espanhola, pelos seus méritos de sempre e agora por um assentimento alheio qualitativamente novo, serão reconhecidas na Europa como parceiros de pleno e inteiro direito, a par daquelas, privilegiadas, que, até hoje, em parte por razões de ordem política e estratégica geral, se têm comportado como principais, e portanto dominantes, daí tirando todas as vantagens, incluindo as materiais, que uma hegemonia costuma conferir. Porém, esta assunção da cultura portuguesa e da cultura espanhola, se é verdade que nos trará benefícios de toda a ordem, virá também aumentar as nossas responsabilidades, no quadro da Europa, sem dúvida, mas também fora dele, como facilmente já se estará deduzindo da minha alusão ao tema deste simpósio: a Europa e o Universal.

Pergunto: se a Europa comunitária vem agora declarar necessário, e até, quem sabe, condição da sua sobrevivência como fonte de civilização, reexaminar a sua relação cultural com o resto do mundo, não estará chegado o tempo de reexaminarem portugueses e espanhóis, por sua vez, a relação que têm, se a têm, com aquela parte do mesmo mundo a que, ainda quando não queiram reconhecê-lo, estão profundamente ligados pela história, sim, mas muito mais pela língua e pela cultura? Refiro-me à América Latina, à Africa também, a todas aquelas partes onde, para o bem e para o mal, deixámos indeléveis sinais, como sempre o hão-de ser os da cultura e da língua, mesmo quando os séculos e os milénios acabarem por convertê-los em estação arqueológica. Dirão os governos de Portugal e Espanha, provavelmente, que as relações culturais com os países com que temos afinidades históricas deste tipo estão vivas, prósperas, e, pelo esforço deles e nosso, prometidas a ainda melhor futuro. Não me parece que seja assim, mas esta não é a ocasião para o exame duma questão para que não me sinto, aliás, qualificado. Noto, contudo, que ter-se-ia de começar sempre por fazer uma diferenciação metodológica, e não apenas semântica, entre relações e relação. Em qualquer caso, o que eu não vejo é como será possível, a partir de agora, alhearmo-nos das nossas obrigações no quadro das previsíveis consequências políticas deste simpósio. A Europa termo de um binómio em que o outro termo seja o Universal, não é uma Europa hegemonizada culturalmente por um ou dois dos seus países, essa Europa, enfim nova, terá de ser a das culturas plurais, a Europa descentrada, e aí, vimo-lo já, encontram-se as culturas dos portugueses e dos espanhóis, ou, para dizer tudo numa palavra, as culturas ibéricas, com o seu específico lugar e as suas indeclináveis responsabilidades.

Eu sei que estas palavras – ibérico, iberismo – são das que, entre nós, mais têm sido alvo e pretexto de interpretações viciosas e equívocos mal intencionados. Mas o que, com o andar dos tempos e a observação dos factos, se tornou claro para mim, é que a Península Ibérica, esta que fez de nós aquilo que somos, esta que pôs em muitos outros muito daquilo que vieram a ser, não poderá entender-se plenamente se for separada da sua relação cultural com os povos do ultramar. Mantendo-se a tendência, por enquanto não invertida, para a deterioração das camadas profundas que ainda a eles nos mantêm vinculados (não confundir com aproximações pontuais subordinadas a interesses de terceiros), acabaremos, nós, os peninsulares, por achar-nos na situação incómoda de quem, tendo-se sentado um dia em duas cadeiras que teve por necessárias à sua estabilidade, acabou por sofrer os efeitos da postura contrafeita, sem se lembrar de que, com os materiais de ambas, faria um assento mais seguro e mais adequado. Esta Península, que tantas dificuldades tem encontrado para olhar-se a si mesma como europeia, corre o risco de perder na América Latina, em África, no mundo, não um mero espelho seu reflector, mas o rosto plural para cuja formação os povos ibéricos levaram quanto possuíam de espiritualmente positivo e negativo, e que é, assim o creio, a melhor justificação do lugar que ocupamos no mundo. Admito que, por suas certas ou erradas razões, queiram esquecer-se de nós esses com quem um dia nos encontrámos, mas, se me é permitido profetizar alguma coisa, prevejo que viremos a descobrir reduzida a nossa própria vitalidade cultural se persistirmos em procurar ou aceitar soluções e vias que, por equivocadamente as entendermos excluidoras doutras, nos levem a que sejamos nós a esquecer-nos deles.

Ora, é para que não se desfaça, de vez, sem pena na glória, este laço já tão frouxo, que eu sugiro que substituamos o velho iberismo, morto e inviável nos tempos de hoje, por um sentido transiberista da nossa posição no mundo, um iberismo à medida das necessidades do nosso tempo, vitalizado por objectivos que não sejam apenas egoistamente domésticos – o que, se não estou a ser indesculpavelmente ingénuo, serviria, e creio que de um modo ímpar, os objectivos da nova Europa cultural de que aqui se tem falado e aqui se pretende esboçar. Esboçar, digo, porque a sua realização plena só poderá ser alcançada com a participação de todos os povos e de todas as culturas da Europa, sem excepções que matam nem hegemonias que assassinam – o que pressupõe, provavelmente, a necessidade de um entendimento também novo da Democracia. Mas isso já seria tema para outro colóquio.

José Saramago

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